Grande Otelo


Ver fotos

Grande Otelo
De onde é este palhaço:

Sebastião Bernardes de Souza Prata não era carioca, como muitos podem imaginar. Era mineiro, nascido em Uberlândia, em 18 de agosto de 1915. Ganhou o sobrenome da família que o educou - Prata - até que ele resolvesse se aventurar no Rio de Janeiro e em São Paulo em busca de sua vocação: ser ator. Estreou no picadeiro: o circo precisava de um garoto para contracenar com o palhaço. "Eu me apresentei fantasiado de mulher grávida, com um travesseiro na frente e outro atrás, por baixo das roupas. Só esqueceram de me avisar que havia tiros na cena. Quando ouvi os estampidos, fugi apavorado. A platéia caiu na gargalhada e o pessoal do circo me chamou para repetir no dia seguinte." Assim começou a carreira de um dos maiores atores brasileiros, que passou pelos palcos dos cassinos e dos grandes shows das mais importantes casas noturnas do Rio. Passou também pelo teatro, pelo cinema e pela televisão, deixando sempre a lembrança de personagens marcantes. Otelo aprendeu tudo por intuição, imitação e instinto de sobreviência.

Quando o pai morreu esfaqueado e a mãe, uma cozinheira que trabalhava com o copo de cachaça ao lado do fogão, casou-se outra vez, ele aproveitou a visita de uma Companhia de teatro mambembe a Uberlândia para escapulir. A diretora do grupo, Abigail Parecis, o adotou "de papel passado" e o levou para São Paulo. Em seu novo lar, tinha a tarefa de levar a filha de dona Abigail às aulas de piano. Mas Otelo fugiu de novo e, após várias entradas e saídas do Juizado de Menores, foi adotado, mais uma vez, pela família de Antonio de Queiroz, político influente da época. Dona Eugênia, mulher de Queiroz, tinha ido ao Juizado atrás de uma garota que a ajudasse na cozinha. O administrador do albergue sugeriu que levasse o negrinho fujão que sabia declamar, dançar e fazer graça. A família adotiva sonhava em transformá-lo em advogado, mas Otelo bateu pé: ia ser artista. Em 1932, entrou para a Companhia Jardel Jércolis (pai do ator Jardel Filho e um dos pioneiros do teatro de revista), quando ganhou o apelido que o consagrou. Os amigos o chamavam Pequeno Otelo, por razões óbvias, mas ele preferiu o pseudônimo The Great Othelo, em inglês mesmo, que já era moda na época, mais tarde abrasileirado e dando a ele o nome pelo qual se tornaria conhecido: Grande Otelo.

Otelo é o nosso ator chapliniano, o que explica ele ter confessado um dia: "Meu interesse pelo cinema começou quando vi ‘O Garoto’, de Chaplin". Tinha 1,50 m de altura, os olhos esbugalhados e os lábios espichados de bebê chorão. Nunca haverá um tipo popular e divertido igual a Grande Otelo. Sua principal atividade foi o cinema. Apareceu pela primeira vez na tela em Noites Cariocas, em 1935. Trabalhou em alguns filmes conhecidos como Futebol e Família (39) e Laranja da China (40), conseguindo fama suficiente para ser chamado para trabalhar no primeiro filme produzido pela Atlântida: Moleque Tião, de 1943. Além de um comediante imcomparável, que formou dupla com Oscarito em dezenas de filmes na época áurea das chanchadas e comédias, Otelo era também um ator dramático de autenticidade visceral. Embora fosse festejado por platéias populares, foi adotado nos anos 60 pelo cinema novo e encarnou Macunaíma (1969), de Joaquim Pedro de Andrade.

Em 1993, foi homenageado no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, quando, na abertura, foi aplaudido de pé pelo público que lotou a Sala Villa-Lobos do Teatro Nacional Claudio Santoro. Grande Otelo morreu de enfarte ao desembarcar em Paris, às vésperas de seus 78 anos, a caminho do Festival dos Três Continentes, em Nantes, onde seria homenageado. Grande Otelo é patrimônio de cultura e arte do Brasil. Sem ele, o País perdeu graça e vivacidade.

MUNDOCLOWN
desde 10/12/2005
Alguns direitos reservados
sob Licença Creative Commons

resolução mínima recomendada para visualização:
1024x768